quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Do ponto em que conheci o outro... e vice versa.

Garcin – (Não cessou de bater na porta): Quero sofrer de verdade! Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata a esse sofrimento cerebral, esse fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia, e que nunca dói o bastante. 

E este foi o nosso tema dos meses de Outubro e Novembro "Eu e o Outro". Qual a relação que temos? De que isso importa?... Pra ser sincera, antes de estudar um pouco sobre isso não achava que era lá "grandes coisas", foi só eu entender do que exatamente se tratava a frase do Jean Paul Sartre "O inferno são os outros" que eu entendi. A relação entre duas pessoas é realmente difícil; e não digo aqui somente a relação amorosa ou amigável, mas principalmente aquela do primeiro contato. Essa sim é a mais difícil! 

Bom, falemos da montagem: diríamos que foram 2 meses bem complicados: novos empregos, ENEM, espera... irônico dizer que tivemos de esperar logo depois em que o tema foi "Tempo". Esperamos! Dois meses para fazer a aula aberta, um mês para sabermos exatamente o que fazer, quase dois meses para sabermos COMO fazer. E nada foi à toa! Tudo teve seu significado: paciência na espera, certeza no significado, confiança nos outros. Quer mais que isso para fazer o tema "Eu e o Outro" ter real significado? 

Escolhemos fazer uma releitura da peça "Entre Quatro Paredes" por ser justamente a peça que mais cita a dor das relações humanas (pelo menos no nosso entendimento). Trabalhamos nela a relação do olhar, do toque e da arte. Metalinguagem. O teatro falando do próprio teatro, da sua relação com a vida. "A arte deve imitar a vida", "Discordo". E assim terminamos a peça. 


O que mais me chamou a atenção deste tema foi o fato de perceber que não existe ninguém autêntico neste mundo. Copiamos estilos, "arquétipos" que achamos convenientes para nós. Somos sim diferentes, ninguém tem exatamente a mesma opinião ou age da mesma maneira que outro, mas... temos a opinião que nos convém de acordo com o que acreditamos, e alguém "borda" esta opinião. 

Também comecei a me perdoar por saber que existem várias "Beatrizes": aquela que é mais quieta, a que é mais avoada, a que é engraçada, a que é brava... todas elas fazem parte de uma Beatriz que achou adequado ser daquele jeito em determinado lugar com determinadas pessoas. Por quê? Porque a relação dela com aquelas pessoas "definiu" que ela seria daquele jeito. 

"Inês– Agora vai pagar caro. Você é um covarde, Garcin, porque eu quero que você seja um covarde. Eu quero, compreende? Eu quero! No entanto, veja que fraquinha eu sou: um sopro. Sou apenas o olhar que está vendo você."  



 Agora... quem defini isto? O olhar que as pessoas tiveram sobre mim e eu "aceitei", ou o olhar que eu tive das pessoas sobre mim? Acredito que a relação (outra vez) dos dois. Pelo que percebo existe um acordo invisível entre as pessoas logo quando se encontram pela primeira vez. Cada uma ali vai fazer um papel perante a outra, e disso surge a relação. O meu olhar muda o olhar do outro e vice versa. E o outro se molda - e me molda- de acordo com esse olhar. Confuso pra caramba...Como as relações humanas!  

Estelle – Está bem, mesmo? Como é desagradável não poder julgar-me por mim mesma. 

O tal de Papel Social também define como as pessoas agirão em determinado ambiente: cada um tem o seu em cada lugar, e este "pacto" é invisível e moldado de acordo com as relações determinadas. Vai você tentar mudar seu papel social em um meio! Tudo vira de ponta cabeça, é como uma máquina: um muda, todos mudam! 

Garcin – É inútil. Aqui, as lágrimas não correm. Inês, eles emaranharam todo o fio. Se você fizer o menor gesto, se erguer as mãos para se abanar, Estelle e eu sentiremos o abalo. Nenhum de nós pode se salvar sozinho. Temos de nos perder juntos, ou nos desembaraçar juntos. Escolha. 


Nossos convidados foram especialíssimos: Deise de Amorim Paz, psiquiatra psicodramatista; Adriana Dellagiustina, psicóloga psicodramatista! Sem contar com o sempre presente William Vasconcelos, músico e filósofo. 

Psicodrama é a relação do teatro com a psicologia. Usar a linguagem artística como terapia, grupal ou individual. Tudo aquilo que você faz em cena tem um significado para você "O que você está sentindo ao fazer isso?", "o que você está pensando neste momento?", são perguntas que as psicodramatistas faziam sempre! Porque a arte pode ser mais reveladora do que nós pensamos.

Fazer uma aula de psicodrama foi como voltar a fazer teatro, olhar para aqueles que chamo de alunos como aluna também.;minha relação com eles mudou naquele momento! 

É muito bom perceber que o teatro é uma ferramenta de descoberta e de libertação. Tem coisas que só a arte tem o poder de revelar, nem só palavras ou gestos, mas o conjunto deles, como arte! Saí da nossa relação feliz por ver que dá certo. A relação: roda de conversas/teatro é poderosa! E você, quando irá se relacionar conosco? 



terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Hora de Acordar

E de repente Júlia acordou. De um sono leve, levantou porque não havia mais razão de continuar dormindo. Foi descalça até o banheiro, tomou um banho para despertar, e quando se olhou no espelho não se reconheceu. Apagou e ascendeu as luzes. Continuou vendo aquele pessoa estranha no reflexo. Saiu do banheiro e voltou. De novo?! Apagou as luzes e saiu do banheiro. Nada. O problema deve ser do espelho... foi para o quarto. No quarto foi pior. Viu que não só o seu rosto tinha mudado, como seu corpo também havia. Entrou em desespero e saiu correndo, de pijamas mesmo! 

Na rua, tudo estava diferente. "Mas o que está acontecendo?! As coisas não eram assim!". Além dela, o mundo havia mudado. As coisas não eram mais vistas como antes. A rua estava mais silenciosa e cinza. As pessoas estavam com um rosto mais cansado. Ficou com medo. Resolveu voltar para casa. 

Olhando ao seu redor reconhecia todas as coisas: a mesa, a cozinha, seu quarto, seu próprio banheiro! Mas tinha alguma coisa de diferente... será que precisava usar óculos? Júlia ainda tinha algum tempo antes de ir trabalhar e sentou em seu sofá.

Passadas duas horas lembrando do que havia acontecido, decidiu tomar uma decisão: "Muito perigoso sair de casa com as coisas assim. Vou esperar que tudo volte ao normal, ou que tudo se esclareça.". Júlia não era nem muito nova e nem muito velha, cursou a faculdade, tinha um emprego, vida normal! Ligou para seu trabalho e disse que tinha alguns problemas para resolver, não batia cartão, então não houve problema. 

Como ninguém chegava, resolveu olhar pela janela para ver o mundo. Ligou a TV, o rádio, mas nada lhe respondia o que ela mais queria: "O que aconteceu com o mundo?!". Desistiu de novo. Ensaiou ler um livro. Na verdade ela só folheava as páginas, porque lendo ela não estava. Então, em um ato de coragem, colocou sua roupa e foi sair para a rua. Enquanto caminhava, percebia que as coisas estavam do jeito que sempre estiveram: seu bairro, os ônibus, a cidade, as pessoas... ela percebeu que o que havia mudado era a forma que ela enxergava tudo ao seu redor. Quando percebeu isso, sentiu uma dor, uma angústia enorme e teve vontade de chorar. Queria contar para alguém, desabafar, perguntar se era assim mesmo, mas com quem ela iria falar? Seus pais estavam no trabalho, ela era filha única, não tinha namorado, suas amigas, bom... tinha medo de ser exposta ao ridículo. Resolveu tentar entender por si só o que estava acontecendo e o que fazer com tanta angústia. 

Andando pela cidade algumas coisas a agradavam e outras não. Percebeu coisas que nunca tinha visto e simpatizou por outras que antes ela detestava. Júlia entendeu. A angústia tinha passado, bem pouco, mas já estava mais tranquila ao saber do que se tratava. 

Voltou para casa e encontrou com sua avó. Esta, que sempre parecia distante desta vez pareceu mais próxima do que nunca: abriu um sorriso e disse "É assim mesmo, com o tempo vai melhorando, mas não é o fim do mundo. Seja bem-vinda!". Júlia não sabia dizer se estava feliz ou se estava triste. Preocupada, isso sim ela estava! "Porque precisa ser assim?". Júlia voltou a dormir e não sonhou, foi um dos sonos mais pesados que teve, quase não acorda! "E se eu não acordar nunca?!". Levantou em um pulo. Foi ao banheiro, tomou seu banho e se viu no espelho. Dessa vez não se assustou, até gostou do que viu; fechou os olhos e fez uma promessa. Se arrumou e saiu para o trabalho, mas não esqueceu da sensação anterior, e nem da sua promessa!

Percebeu que essas coisas eram assim mesmo: assustam, mas passam. Ia doer, e não ia ser só uma vez, várias vezes! Nossa, quanta dor Júlia teve! E em todas as dores e angústias que Júlia sentiu, ela se lembrava da promessa que havia feito naquela época "Nunca perca o brilho nos olhos". Júlia dormiu, sonhou e acordou. Foi até o banheiro, tomou sua ducha e olhou no espelho. Seus olhos ainda brilhavam!  


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

CARTA DE INTERESSE

               Desde pequena fui ligada ao teatro. Mas que criança não é? As nossas próprias brincadeiras e nossa forma de enxergar o mundo penso eu que são dignas de um ator quarentão. De qualquer forma, cresci com o sonho de fazer teatro, de ser atriz.
                Quando tinha 13 anos, entrei no Teatro Escola Macunaíma para fazer um espetáculo infantil pela primeira vez. Nunca vou esquecer aquela sensação de estar no palco, colocar o figurino, aguardar o público. Dizem que isso vicia, e eu acredito!
                Com 15 anos comecei a fazer o curso profissionalizante de atores também do Teatro Escola Macunaíma, e lá já tinha quase certeza de que era isso o que eu queria para a minha vida. Porém, na hora de prestar vestibular, escutei meus pais e prestei Rádio e TV na Faculdade Cásper Líbero para ter mais uma opção profissional.
                Mal sabia eu que no meio da faculdade me formaria como atriz e começaria a dar aulas de teatro para crianças. E sabia menos ainda que o fato de dar aulas me faria mudar 100% meus planos e sonhos: antes pensava em ser preparadora de elenco de cinema e televisão. Hoje, penso em trabalhar com produção cultural e educacional, levando para aqueles que recebem tão pouco o muito da nossa cultura. Não sei qual dos dois sonhos é o mais difícil.
                Baseado nessa vontade, criei um projeto juntamente com a Cia de Teatro Olhares (onde também sou atriz) usando a linguagem do teatro para conscientizar adolescentes e jovens sobre as questões universais do ser humano e do homem contemporâneo. Dou aulas todos os sábados em um espaço cedido pela ONG de Edu comunicação Viração, e tenho como alunos os próprios alunos da ONG e alguns outros de fora.
                Saber que uma arte pode mudar a vida de alguém e pode alterar a realidade é a minha linguagem. Quero viver cada vez mais de arte e de cultura, espalhando ainda mais essa nossa paixão que só quem sente entende.
              Tento ao máximo cuidar do nosso teatro com todo o respeito, como um santuário, e tratarei do mesmo modo tudo aquilo o que aprender na vida e nos palcos. O teatro, acredito eu, é a arte mais pura e mais perigosa que o homem inventou, não podemos maltratá-la e desrespeitá-la.


               Fico aqui no Brasil na vontade e na esperança de cada dia mais termos orgulho de sermos atores e agentes culturais. Tenho a esperança de que um dia irão honrar o nosso modo de fazer arte e entender nossa maneira de ver a vida. Somos muitos e com diferentes visões, "Olhares". E tenho fé em Deus, nos Orixás, em Maomé, Alá, na natureza que um dia nada será tão difícil na arte.

           No momento estou como a maioria de nós: em busca de parcerias de trabalho, no corre para concretizar os projetos e na vontade de fazer acontecer. 


Trechos da Carta de Interesse para a Oficina de Eugênio Barba, que irá acontecer nos dias 1 a 6 de novembro no Sesc Belenzinho. http://girasp.com.br/2013/10/oficina-com-odin-teatret/ 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A nossa "Exótica" Cultura Brasileira

       Porque quando alguma mulher branca diz que prefere homens negros ela já diz com um sorriso malicioso no rosto, e já sabe que ouvirá risadas, e piadas como "Safadinha!", "Não é boba nem nada!"? Porque quando vamos para um centro de Umbanda ou Candomblé falamos para algumas pessoas como se fôssemos desbravadores? Porque quando dizemos que alguém é da umbanda ou do candomblé, falamos como se essa pessoa fosse de alguma seita secreta ou bruxaria? Coloco isso no coletivo porque eu hoje percebo que também faço parte da enorme lista dos europeizados brasileiros. Acabei de inventar este termo. Será?

Tambor de Crioula (foto tirada do site do Ministério da Cultura)
       Essa semana participei de uma oficina de Tambor de Crioula no Teatro Cit-Ecum, todos os dias, das 10h às 13h. Tambor de Crioula é uma expressão afro-brasileira, que mistura dança, percussão e cantos populares que reverenciam São Benedito. Para ser realizada, não precisa de data ou lugar específico. O grupo que me ensinou um pouco dessa cultura popular foi o do finado Mestre Felipe, uma das mais importantes figuras da cultura popular brasileira e maranhense.

       Mas porque raios uma oficina de cultura brasileira me fez pensar essas coisas? Simples: moro em uma metrópole, no sudeste do Brasil, que prefere a cultura estrangeira a qualquer outra coisa. Eu mesma, que sempre me considerei uma pessoa brasileira (gosto de samba, MPB, poxa!) me peguei mais pra lá do que pra cá. Explico: sou atriz. O teatro que aprendemos é o teatro europeu, tanto a técnica base que vem da Rússia, como a forma de fazer. O que eu, como brasileira, faço para aproximar a minha linguagem artística da linguagem do meu povo? Absolutamente nada.

       Pois é. Estou me dando um soco da cara. Gostar de samba, MPB, axé, capoeira, de Brasil é fácil! Tudo isso, essa nossa música, a dança, o nosso modo de ser (feliz, simpático, mulher bunduda, gostosa, sexy)... tudo isso foi comprado - e reconhecido- pelo resto do mundo, como já disse Carmem Miranda "Disseram que eu voltei americanizada". Tudo o que é reconhecido, taxado, lacrado como brasileiro lá fora, aqui passa a ser visto, reconhecido e quase um "orgulho nacional". Quase todo mundo gosta de samba, e sabe alguma dança de Axé, todos sabem mais ou menos o que é capoeira, todos já ouviram pelo menos uma vez as MPBs das antigas. Agora, aquilo que ainda não foi proclamado lá fora não existe no Brasil. É o caso do Tambor de Crioula. Sim, é patrimônio imaterial brasileiro. Já é um passo! Mas ouvir o produtor do grupo dizer que no Maranhão os prefeitos preferem chamar os cantores de Axé da Bahia nas festas populares maranhenses significa que o brasileiro não dá a menor importância para o que fabrica.

        Mais exemplos! Aqui em São Paulo, quantos conhecem alguma coisa da cultura popular do interior paulista, ou de qualquer outra parte do Brasil? Os que respondem afirmativamente provavelmente são os "artistas", "bicho-grilo" (pessoas consideradas exóticas), que procuraram, caçaram e encontraram em algum canto de São Paulo alguma coisa brasileira. E eu, honestamente e com muita vergonha, me coloco na parte que responde negativamente. Conheço o projeto Revelando São Paulo, do Abaçaí Cultura e Arte. Espera... conheço não, já ouvi falar.

        É muito triste saber que eu, uma pessoa que fala aos quatro cantos "sou atriz", "quero trabalhar com cultura", desconheço tanta coisa da nossa cultura. Sou vítima - ou não - da educação européia, da tentativa de esbranquiçar o Brasil que vem desde o início da nossa história. Eu, que desfilo no carnaval, que ouço muita música brasileira, eu mesma, não conheço o Brasil. Porque o Brasil tá escondido em várias partes do interior, o Brasil tá escondido nas casas das pessoas mais velhas, nas casas de cultura popular, nas festas de santo mais tradicionais e menos marketeiras
. E foi escondido por nós, europeus, que queriam de toda a forma transformar o Brasil em um Estados Unidos tropical, afinal, é o melhor país para se viver, não é mesmo?

        Ainda temos muito o que aprender com aqueles que defendem a nossa cultura popular, que vem de boca a boca, nas rodas de conversa, nas rodas de batuque, de samba, que vem daqueles que não damos o menor valor, porque nós do sudeste praticamente não moramos no Brasil, estamos aqui só de passagem, e ignoramos qualquer ruído que não foi reconhecido lá fora. É Brasil....

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A ESPERA DO TEMPO PASSAR

Eu acredito em destino. Mas se eu acredito em destino, porque eu não sossego a ansiedade? Porque eu sou naturalmente ansiosa? Mas se eu sou naturalmente ansiosa, é porque talvez eu não acredite tanto assim em destino... Ah! Como minha cabeça explode! 

O mês de agosto sempre foi um mês estranho pra muita gente. Estranho, né? Porque será? Impressionante como este mês está estranho pra mim. São muitas esperas, muitas frases do tipo "eu sei que quando chegar a hora, farei a melhor escolha", "vamos esperar pra ver no que dá", "calma que coisas melhores virão". Sempre frases destinadas ao futuro! Sempre! Como se isso fosse acalmar quem fala e quem ouve. Incrível que parece desesperar mais... 

Irônico dizer que este mês o tema do projeto "Novos Olhares" é "Tempo". Tempo é uma coisa que todo mundo sabe o que é, mas ninguém sabe realmente explicar (como já dizia Santo Agostinho). O "tempo é o melhor remédio". Que inferno de afirmação! O tempo às vezes pode durar milênios, segundos, tudo depende do momento que está sendo vivido. 

Afinal, porque a gente sempre quer viver o dia seguinte? Pra nos assegurarmos que as nossas escolhas estão certas? Que viveremos o amanhã? Porque essa necessidade que o tempo passe depressa? Tenho a esperança que esse sentimento seja por conta da minha idade. Jovem, quer abraçar o mundo, acha que não terá tempo de realizar nada... 

A necessidade de sentir o tempo passar, ver que as coisas mudaram (para pior e para melhor)... engraçado que o tempo está sempre atrelado a evolução, nunca ao fracasso. É melhor pensar assim. Realmente acho que o passar dos dias (não o tempo, mas é o tempo) nos ajuda a resolver nossas questões. Mas quem as vive não quer pensar que daqui uns dias estará melhor, quer resolver o problema agora! Dane-se o tempo! Meu tempo é hoje. Mentira. Meu tempo nunca foi hoje, nunca consegui essa proeza. Meu tempo sempre foi o amanhã, o daqui 10 anos, 8, 6... e com o passar do tempo, o próprio tempo vai diminuindo. 

No projeto faremos uma cena de "O Jardim das Cerejeiras". Ótima lembrança de Rodrigo Inamos. Justo Anton Tchekov, que parece que nas suas peças o tempo não passa. E nesse caso o tempo passa, para a história, e não para  as pessoas. O tempo vem como um rodo, que vai passando e empurrando, deixando as pessoas contra a parede conforme ele passa. O tempo exige pressa, decisão! Uma peça ótima para esse momento em que tudo aguarda para acontecer. Aguarda o que? O tempo. 

A falta de perspectiva, a falta de notícias, a falta de certezas, a falta de coragem... tudo isso faz o tempo parecer uma eternidade! Parece que estamos adormecidos esperando a hora certa para acordar, levantar e começar a fazer algumas coisas. O tempo está muito atrelado ao medo, que por sua vez está muito atrelado à ansiedade, que por sua vez está atrelada à insegurança, que por sua vez está atrelada ao futuro, que está atrelado ao tempo. 

Um dia conseguiremos, verdadeiramente, saber esperar. Saber ficar muito tempo em silêncio ao lado de muitas pessoas... isso um dia não vai mais nos incomodar. Esperar não vai significar inércia, mas sim sabedoria. Que assim seja, amém!


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

IMPROVISAR A FELICIDADE OU SER FELIZ IMPROVISANDO?




   Se quiser se juntar à nós, é só chegar na Rua Augusta, 1239 e interfonar na Viração. Estamos abertos, principalmente para novas opiniões!    

Adriane Tunes e William Vasconcelos
    Há 2 meses tenho trabalhado, juntamente com a Cia de Teatro Olhares, no projeto "Novos Olhares", que pretende por meio do teatro trazer novas visões do mundo para as pessoas. A ideia é simples: trabalhar a cada mês um tema diferente com uma linguagem teatral diferente para, na aula aberta (última aula do mês), um convidado externo ligado às artes (qualquer arte) assistir as cenas preparadas e entrar na nossa discussão colocando, é claro, a maneira de como a arte dele pode ver o mesmo tema. Ou seja, diversos modos de olhar para um só ponto.

Alguns alunos e convidados.
    No primeiro mês trabalhamos com improviso e convidei meu amigo e ator Betto Pita para a aula aberta. Porque improviso? Levando em conta que a maioria do grupo estava conhecendo o universo teatral pela primeira vez, achei justo que eles entendessem que a graça - e a magia- do teatro é simplesmente acreditar no que você está fazendo, perder o senso do ridículo que muitas vezes nos coloca a sociedade, e confiar no grupo. Dizem que fazer teatro é se jogar de um precipício sem absolutamente nada em baixo. E é verdade. Principalmente no improviso.

Rodrigo Inamos, da Cia de Teatro Olhares
e Convidado
   A aula aberta foi uma delícia! Os alunos perguntaram, interessados, sobre as diferenças de fazer teatro decorando um texto, e de improvisar uma cena. É muito bom ver que os alunos se interessaram pelo tema e pelo convidado, fazendo perguntas que nós atores sempre nos fazemos: "Como conseguir a verdade na cena?". Ai ai... quem é professor sabe o quanto isso é bom!

   Neste mês que se passou, o nosso tema foi mais filosófico: "Felicidade", com cenas a partir de partituras corporais. Está claro que felicidade é um tema recorrente em artigos, facebooks, conversas de botequim... Cada vez mais o homem se pergunta se ele conseguirá um dia descobrir o que é a felicidade.

Alunas e convidada.
   Pedimos para na primeira aula trazerem objetos que respondessem a pergunta "O que é Felicidade", e vimos de tudo: meia, foto, música, DVD, texto... cada um trouxe o que para si significava. E a partir disso, fizeram cenas com partituras corporais e descobriram que o sentido de uma cena pode ser construída DEPOIS da própria cena. É saber que os alunos percebem e gostam das suas próprias descobertas, acredito que o conhecimento começa aí.

   Na aula aberta, chamei um casal de convidados: Adriane Tunes, atriz, pedagoga e psicóloga e Willian Vasconcelos, pensador (não se considera um filósofo mesmo tendo feito filosofia) e músico. Ambos com uma cartela cheia de opiniões, livros e músicas que tratavam sobre o tema.

   Muito bom perceber que existe gente da minha geração (18 a 30 anos) a fim de discutir e filosofar um pouco sobre a vida. Todos ficaram atentos às questões colocadas. Silenciosos. E por incrível que pareça, por 1h30min! Aquela história de que a minha geração não se interessa por nada me pareceu mentira naquela hora.

   Sobre o tema felicidade, fica claro que o homem não consegue - e não deve- definir. E que a cada minuto tentando saber o que é, o que significa, quer dizer 1 minuto angustiante a mais da não resposta. Confesso que fiquei aliviada ao saber que ninguém, nem o Dalai Lama conseguem definir. Talvez pare um pouco para pensar e sentir pequenos momentos de alegria, assim a tranquilidade me deixaria mais feliz. O importante é saber e perceber que cada um tem um motivo e momentos de alegrias extremas, e que não é ruim sentir tristeza. Para Pascal (estou correta, Willian?) o homem é um ser de tédio. Por mais triste que seja concordar com isso, eu concordo. Mas triste porque? Não estamos todos a todo momento tentando procurar algo que nos faça sentido? E quando encontramos este "algo", logo tratamos de encontrar outro "algo" que nos complemente porque o outro "algo" já nos cansou? Acredito que essas sensações de "quero mais" (e não cito coisas materiais aqui) fez o homem descobrir grandes coisas. Mas existem coisas além do próprio homem que seria chato demais se ele soubesse a resposta. Afinal, a graça e a dor da vida são as dúvidas!

   Este mês teremos o tema "Tempo" na linguagem do naturalismo. Acho que em uma cidade como São Paulo, onde 24 horas não são o suficiente, responder o que seria esse tal de tempo, ou ao menos tentar, seja útil e confortador, como foi a discussão sobre felicidade.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Muita Hora nessa Calma!

O Analfabeto Político
"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais." Bertold Brecht 

Amo Brecht, ele sempre me disse as coisas certas na hora certa. 

Estamos passando por um momento meio atordoado da vida política brasileira: muitos vômitos insatisfeitos, muita raiva guardada, muito motivo e muitas ideias. Sem canalização. Ontem, assisti ao "Roda Viva" da TV Cultura, e os representantes do Movimento Passe Livre insistiram na ideia de que as pessoas estavam indo às ruas pedindo a revogação do aumento da passagem. Eles sabem que não é isso. Ontem, estava contra eles, afirmando que perderam a rédea (o que também não é mentira), e que se recusam a ver que as pessoas estão simplesmente revoltadas com a vida que levam. Segundo meu pai, Pedro Gimene, eles só não querem perder o protagonismo. Não os culpo. 

Agora, meu facebook antes bombardeado com coisas engraçadas, alguns protestos políticos, samba, e etc, está monotemático: No protesto de hoje, o que iremos falar? 

Não que isso seja uma coisa ruim, não acho! Mas, querendo ou não, tira o foco do motivo pelo qual o MPL foi criado e dá margens às mil e uma facetas da nossa querida classe média burguesa e dos nossos amados reacionários brasileiros, desesperados em meter o pobre na cadeia e fazer do nordeste um lugar que não pertença mais ao Brasil (vomitei). 

Como disse meu amado e idolatrado Bertold Brecht (está na hora dos neo-revolucionários saberem de quem se trata), o analfabeto político é a pior ignorância que alguém pode querer para si, e vejo que estamos passando por essa prova: o excesso de jovens, de pessoas descontentes é lindo de ver, muito mesmo! Mas dá medo de ouvir alguns protestos. Que eu me lembre, na primeira metade da década de 1960, nosso querido Jango defendia as reformas de base, os trabalhadores, jovens e partidos políticos de esquerda o apoiaram, enquanto a nossa famosa classe média juntamente com o seu grande modelo, a elite, morria de medo que isso se tornasse realidade, os queridos udenistas. Fica claro pra todo mundo o que aconteceu em 1964, não é? 

As pessoas, com raiva dos pobres, raiva dos nordestinos, raiva dos pretos, do samba, das oportunidades iguais, se inflavam em discursos que o próprio Hitler aplaudiria de pé, "mas longe de mim ser preconceituoso!". O que vejo hoje não é nada muito diferente: estudantes que não tiveram base política nenhuma, sendo facilmente moldados aos quereres - indiretos e obscuros - da nossa direita. Agora, todo cuidado é pouco: vamos nos inflar menos e raciocinar mais. Não acredito que todo político é corrupto, assim como acredito que todo homem é um ser político, ele faz política em qualquer circunstância. Não gostaria que a minha geração se inflasse de orgulho apoiando o voto nulo, ou o voto em branco por simples birra. Isso não é birra, é burrice! A política deve acontecer sim, e não é pedindo impeachment que vamos resolver alguma coisa. Temos que pensar nas consequências dos nossos quereres. 

Conseguiram transformar essa manifestação em um grande vazio, com ideias vagas sobre todos os assuntos, e o que o MPL quer mesmo, ninguém mais discute. Se todo mundo que gritar, então agora, gritemos pelo que está em pauta: a revogação do aumento. Depois, gritemos pelas nossas angústias específicas. 

Eu iria hoje gritar pela minha bandeira: "Cultura também é Educação", mas acho que só atrapalharia com mais um tema. Se vou perder a chance de gritar por isso? Nunca! Não é a toa que dou aulas de teatro, não é a toa que sou atriz. Esta sempre foi, e sempre será a minha bandeira. 

Hoje agradeço aos meus pais Pedro Gimene e Cristina Gimene, que desde que eu me conheço por gente me educaram que política é coisa séria e que existe sim gente querendo fazer o bem. Me ensinaram a ter vontades me contando das greves que faziam, dos movimentos que participaram e da favela que ajudaram a urbanizar (é só passar pelo Andorina). Muito obrigada pais que acreditaram em mim como um ser-humano que sabe que não está aqui a toa, desde sempre eu tenho essa consciência. 

Agora, peço aos filhos que quando ouvem seus pais dizerem que "política é uma merda" e que "nada que a gente pede acontece" o façam olhar para a janela, e perceber que o mundo é muito mais "que a porra do seu todynho gelado". Os pais DEVEM conscientizar os filhos na política, vamos acabar com esse discurso, é isso o que estraga o país, não os nordestinos do Bolsa Família.

Jovens, agora mais do que nunca é preciso LER e ENTENDER política, não será mais aceito qualquer argumento baseado em preconceitos, o negócio ficou sério porque nós quisemos que ficasse sério, agora tem que saber o que falar e como pedir. Se eu acho que o MPL sabe o que está dizendo? Acho que não, e eles mesmo admitiram ontem ao vivo "não temos a obrigação de ver como a prefeitura faria o passe-livre", mentira! Mas, que o que está acontecendo é muito legal de ver, é. Só não pode ser só isso.