sexta-feira, 5 de abril de 2013

SOMOS TODOS LOUCOS!!

Nesta terça-feira, dia 02/04/2013, fiz uma experiência: dei uma aula de teatro/corpo para alunos de uma academia de ginástica. A minha tentativa é de trazer o universo do teatro para a realidade da academia. Como? Exercícios corporais juntados com interpretações e visões criativas sobre as coisas da vida.

Pra variar, estavam todos os 5 ou 6 alunos (esqueci de contar) bem tímidos. Alguns faziam os exercícios numa boa, outros se perguntavam o porque estavam ali. Ninguém se recusou a fazer nada, apenas fazia com vergonha; e olha que eu não coloquei nada que considerasse "pagação de mico": caminhando pelo espaço, partituras corporais, dança dos elementos, exercício das fotos, improvisação sobre um espaço... Mas mesmo assim os senti acanhados e faziam tudo rindo e não acreditando no que o colega estava fazendo.

Depois dessa aula parei para perceber a grande diferença entre dar aulas para crianças e adultos: as crianças não estão ligando para seus papéis sociais, para o que os outros vão pensar dela se agir desta ou daquela forma, fazem e pronto! Já o adulto, cheio de regras e funções, acha todo esse universo da imaginação, criação e brincadeira uma vergonha. Até perceberem que eles, naquele espaço, estão permitidos a fazer o que bem entendem se vão algumas aulas.

Engraçado... passando por algumas situações que a gente passa no trabalho penso que loucos somos nós. Porque não um pouco de loucura na nossa vida cotidiana? A quem queremos agradar? Porque devemos fingir tanto estarmos contentes, estarmos satisfeitos? Não é mais correto falar a verdade? Correto é, mas é muito mais difícil, porque nem todo mundo concorda com alguém muito sincero.

Então quer dizer, temos que fingir! Fingir que existe muita justiça no mundo, fingir que tudo isso é muito normal. Ou seja, somos atores! HÁ! Então, meus amigos, porque não nos permitimos soltar o verbo? Porque não nos permitimos expressar o que queremos? A arte é uma bela válvula de escape, a arte nos ouve, e através dela somos ouvidos pelo mundo. Se não falarmos, enlouquecemos, e cada um tem seu meio de enlouquecer: depressão, dor de estômago, estresse, consumo, mau-caratismo. Vejo todas essas reações humanas como válvula de escape. Porque então não fazemos algo mais saudável? Não precisa ser propriamente teatro, mas precisa ser algo onde você se sinta ouvido.

Admita: por dentro, SOMOS TODOS LOUCOS!!

segunda-feira, 18 de março de 2013

SIMPLES E BONITO

Ontem, finalmente, vi um espetáculo que me fizesse subir as paredes! Há tempos não me sentia assim, com a cabeça livre, pensando no que vi, e tomando como referência para várias cenas que desejo fazer. O espetáculo de dança "Pó de Nuvens" do Grupo de Dança Primeiro Ato, mistura dança contemporânea e teatro. Os dançarinos tem muita expressão corporal, e mostram uma leveza que até parece muito fácil fazer qualquer coisa que eles fizeram.

O que me chamou atenção para assistir, além da dança, foi a homenagem à dois mineiros: João Guimarães Rosa - autor de Sagarana e muitos outros - e Milton Nascimento, um dos meus cantores preferidos. Quando você lê uma sinopse dessas, imagina mil coisas: poesias, danças baseadas nas histórias, músicas... Na realidade, o que eu vi, foi mais uma homenagem carinhosa aos dois mineiros do que propriamente uma mostra de suas obras: o diálogo feito somente com cidades mineiras "Caldas, caldas....", o sotaque mineiro, as vacas, o clima de fazenda... Me senti feliz. Aliás, não só eu! Todo o elenco parecia estar satisfeitíssimo com o espetáculo. Sorriam livremente, sem aquela obrigação do "cadê o sorriso?!". Muitas vezes vi uma dançarina com os olhos fechados, simplesmente curtindo e sentindo tudo aquilo que estava acontecendo.

Outra coisa que me pegou neste espetáculo foi a nossa mania de querer entender todas as mensagens. Às vezes, em uma espetáculo, entender é simplesmente SENTIR. Não precisamos racionalizar tudo, principalmente um espetáculo que não tem quase nada de diálogo. As sensações que me traziam me fizeram ficar assistindo aquilo o dia inteiro, e ali eu entendi que se tratava de uma homenagem carinhosa.

Ficava orgulhosa quando via exercícios de teatro no meio daquela dança toda: o famoso exercício das fotos,  o exercício de escrever com uma parte do corpo, coro... Isso é mais uma prova de que tudo isso junto se torna uma coisa só, a arte.

Saí de lá feliz, e com vontade de assistir mais espetáculos assim: produção simples, sem grandes acontecimentos, dramas, mas bonito.
Foto de Guto Muniz







quarta-feira, 6 de março de 2013

5 MESES EM POUCAS LINHAS

Fiquei muito tempo sem passar por aqui, muito tempo mesmo! Mil coisas aconteceram, uma seguida da outra, e como as atrizes falam "Estou estudando novas propostas, novos projetos...". Desde Outubro tenho sempre alguma coisa nova pra me preocupar: edição do TCC, apresentação de final de ano das minhas alunas, coreografia de uma ala da Mocidade Alegre, formatura... Agora que eu dei uma respirada!

Oficialmente sou "Atriz e Radialista" -a ordem vem pelo primeiro DRT- como a maioria das pessoas, tenho uma vida dupla: sou Assistente de Produção e atriz. Até fevereiro tinha uma vida tripla, como Assistente de Produção, Atriz, e coreógrafa! Pois é, a gente nem percebe e a vida nos dá mil e uma oportunidades, e ansiosa que sou, só percebo que elas vieram depois que passaram. Mas estou aprendendo a lidar com ela, e começando a reconhecer as minhas conquistas (isso é muito importante!).

Enfim, não sei nem por onde começar! Vamos pelo começo: depois de noites mal-dormidas, TCC foi entregue, e consegui me voltar somente para a apresentação das minhas alunas no Studio Eudóxio Júnior. E ainda bem que o TCC já tinha "passado"; não é que mudaram a proposta da apresentação 2 semanas antes do espetáculo?! Pois é, nesse final de ano descobri que sou, realmente, uma mente criativa. A exatas 2 semanas antes da apresentação final, o dono da escola assistiu ao primeiro passadão (quem é ator sabe que o primeiro passadão é onde todo mundo vê a peça inteira, e as mudanças acontecem), e disse que não era nada daquilo o que ele esperava. Estranho, pois fui chamada para fazer um trabalho mais corporal com as meninas, mas, como não queria manchar o meu nome na minha primeira direção, mudei praticamente tudo! Coloquei falas (que praticamente não existiam), cortei cenas, mudei posição, menina! Foi um corre! Pensa em 20 meninas entre 9 e 14 anos juntas! Bagunça.... Só consegui fazer 1 passadão no palco, e respirei fundo, joguei pro universo, e seja o que Deus quiser (seríamos o primeiro número). E não é que deu mega certo?! Graças às minhas aulas de roteiro, de edição de rádio, de teatro, e a terapia, respirei fundo, confiei nelas e em mim (eu na mesa de som, e elas no palco), e te juro, deu 100% certo! Papai e mamãe elogiaram, público riu onde tinha que rir, e eu senti qual é a sensação de dirigir uma peça: na hora, não há nada a fazer!

Passando a apresentação, só elogios, e percebi que nasci para criação, porque logo depois, o carnavalesco Sidnei França, da Mocidade Alegre (só pra constar, bi-campeã do carnaval de SP) me chamou para coreografar uma Ala Cênica na escola, eu, que não tenho experiência nenhuma com dança, só sei dançar porque por algum motivo nasci com ritmo. Na realidade, ele queria uma coreografia básica, com algo mais teatral, para mostrar que a GULA não é tão ruim assim. Quando me mostraram a fantasia, fiquei pensando "tô ferrada, o cup-cake é gigante! Como eu começo?", mas logo depois, Sidnei me diz que criou a fantasia se baseando em um dos figurinos de "Priscila, a rainha do Deserto". Ponto "pánóis"! Naquela mesmíssima hora descobri como eu deveria fazer, que linguagem usar, pra que lado levar: escrachado, cômico, musical, kitch... Assisti os musicais mais próximos, filmes de culinária, comédia dell'arte, e criei uma historinha que serviria de base pra coreografia. Que ator não vive de histórias?! Com essa experiência, comprovei que "Teatro É Jogo" mesmo! Eu e Rodrigo Inamos criamos diversas cenas ouvindo o samba e nos divertindo! Ou seja, estávamos dentro do jogo, da brincadeira, e conseguimos criar coisas muito legais. Depois, Priscila Paciência (esta sim é bailarina/dançarina) me ajudou com a parte dançante, tirando e colocando coisas para facilitar a coreografia. Mesmo com algumas dificuldades, deu tudo certo, e nosso trabalho foi reconhecido!

Infelizmente nem tudo são flores: não continuarei na escola, pois o dono acredita que é melhor abrir o curso de teatro somente no segundo semestre, já para a apresentação final. Fiquei chateada, mas não com raiva. Quem não conhece teatro não percebe que é o mesmo esquema que a dança: teatro também enferruja, não é possível parar de fazer teatro por um tempo e querer voltar 100%, é a mesma coisa! Agora, estou tentando acalmar a minha ansiedade pra não tentar começar um novo curso, acredito que nada é por acaso, e que talvez agora seja o momento de parar e estudar, pra depois sim, juntar um grupo de pessoas interessadas e poder falar: "venha fazer aula com Beatriz Gimene!". Engraçado, toda vez que eu penso que esta é a melhor atitude a ser feita, eu logo penso onde eu posso dar aulas agora...

Ala Gula 
Enfim, tentando respeitar o tempo, fazer uma pausa dramática pra voltar bem, sem pressa, porque tudo feito na correria pode ser mal-feito. Meus planos agora? Fazer aula de ballet até o 2o semestre, e depois dança contemporânea. Se a grana deixar, minha paixão, dança-afro, o ano inteiro. Teatro é paixão, mas também é respeito.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O ELEMENTO SURPRESA

INT. DIA- SALA DE JANTAR 
Beatriz está com um lap-top, escrevendo. Voz-off.

  Trabalhar com crianças para mim se torna cada dia mais gostoso, e a cada aula mais coisas inesperadas acontecem. Uma das grandes lições que já aprendi é: criança não tem muita paciência com ensaios, devemos sempre fazer com que se sintam brincando, com que estejam se divertindo. Outra grande lição, é que elas precisam de exercícios em que corram, pulem, gritam, riem muito! 

INT. DIA- SALA DE DANÇA ESPELHADA, GRANDE 
Aula de teatro com uma professora de 21 anos, e 20 crianças entre 9 e 14 anos. 

   Uma vez, me deixei ganhar pelo "Pic-Bandeira", uma brincadeira de criança onde dois times têm uma bandeira, cada no final da linha, uma queimada com bandeira. Comecei a minha aula bem, mas no meio dela as crianças começaram a me pedir para brincar de Pic-Bandeira. Na hora disse pra mim mesma

PROFESSORA
 Não. O que essa brincadeira tem a ver com teatro?

     Mas as crianças continuaram insistindo, e eu tinha reservado um tempo pra aula pra elas escolherem a brincadeira. Meia hora para o término da aula, e eu era voto vencido. Já tinha feito o que precisava fazer, e todas as crianças queriam brincar de pic-bandeira. Ok... Fazer o que? Um dia a gente perde, no outro a gente ganha. Naquele momento eu ganhava o carinho delas. 

INT. NOITE- SALA DE TELEVISÃO 
Beatriz está de pijama sentada no sofá, com seu lap-top no colo, um cadeiro e um estojo ao lado.

    Depois dessa aula, tive pra mim: eu mesma vou inventar e levar brincadeiras cênicas! Começou o quebra-cabeça. Como pegar uma brincadeira clássica e colocar teatro? Bom, não sei se fui original, ou se essa brincadeira estava em alguma gaveta do meu cérebro, só sei que levei algo: Queimada Cênica. Quando você é queimado, deve ficar paralisado com alguma máscara teatral. Máscara neste caso, entende-se por pose/careta, etc. 

INT. DIA- SALA DE DANÇA ESPELHADA, GRANDE
Aula de teatro com uma professora de 21 anos, e 20 crianças entre 9 e 14 anos. 

     Mas... por incrível que pareça, neste  dia de aula eu não precisei usar! Ao contrário da aula anterior, as crianças embarcaram no jogo cênico. Fizeram cenas com fala, e logo em seguida a mesma cena sem fala. Foram ótimas! Pra mim, quanto menos fala uma criança tiver, melhor pra ela! Devemos explorar sua capacidade de criação, e convenhamos, a fala nos facilita muito! 

     Quando apresentaram a cena com fala, se divertiram e riram com as amigas. Logo depois, propus para elas um novo tipo de cena:
PROFESSORA

 Façam a mesma coisa, sem fala!

CRIANÇA 1
 Como assim, prô?

PROFESSORA
  Simples, façam quase uma mímica. Exatamente o que vocês fizeram, sem fala alguma. 

     Senti que ficaram com o pé atrás, e para tranquilizá-las, dei um conselho. 

PROFESSORA
 O segredo é exagerar! 

     Como sempre dizemos no teatro, comece exagerando, é melhor podar do que tentar plantar! E o resultado? Melhor do que eu esperava! As crianças foram ótimas, fizeram tudo certinho. Na apresentação dos 2 primeiros grupos, estava tudo muito silencioso, até que uma menina disse: 

CRIANÇA 2
 Prô, eu prefiro com as falas. 

     Como eu mesma defini que as apresentações seriam sem fala, logo pensei:

PROFESSORA
Porque já não coloco uma música?! 


     Pedi para o terceiro grupo esperar para apresentar, e coloquei a famosa "With a Little Help from my Friends",  versão Beatles. Resultado? Sucesso! Logo depois do terceiro grupo, todas as crianças adoraram, disseram que parecia um clipe. Às vezes o professor sabe o que está fazendo... Elas gostaram tanto que nem deu tempo de brincar de queimada cênica! Fica pra próxima aula...

INT. DIA- SALA DE JANTAR
Beatriz está com um lap-top, escrevendo. Voz-off.

     Contei estes exemplos porque querendo ou não, professor só aprende na prática a maneira de trabalhar com cada sala. Agora, não dou mais aula sem levar uma brincadeira cênica. Preparar aulas de teatro é parecido com criar um roteiro: tem que saber seu público-alvo, o enredo, seu objetivo final, o acontecimento principal, e como amarrar tudo isso de uma maneira divertida e didática, sem esquecer do elemento-surpresa! E claro, sempre levar o stand-by.

FIM. 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

DANÇA TEATRO PARA CRIANÇAS... É POSSÍVEL?

            Tenho um novo desafio para seguir: dou aula de teatro infantil para 2 turmas, a primeira de 9 a 15 anos, e a segunda de 4 a 8. Fui chamada, pois o dono da escola queria algo mais musical para trabalhar com seus alunos, e por causa da peça Os Saltimbancos, apresentada em março de 2012, fui indicada e chamada. 
            Penso, que por serem muito novos, não será possível fazer um musical convencional. As crianças intimidadas falam baixo, choram, não entram no palco. Não quero que isso aconteça. Para eliminar este risco, pretendo fazer uma "dança teatro" - bem entre aspas mesmo - com meus alunos. 
            Imagino o seguinte: peço para os alunos mais velhos me trazerem músicas que gostam, e criaremos cenas a partir delas. Não sei se é possível eles escutarem uma música e imaginarem uma cena. Eu, Beatriz, com 21 anos, faço isso direto. Se eles não criarem uma cena a partir da música, vou para o plano B. Bem início de teatro mesmo: dou uma situação, eles improvisam (com falas mesmo), e depois coloco a música, e eles devem atuar com a música, sem falas. 
            É um desafio e tanto! Será que vai dar certo? Tem que dar. Dia 16 de novembro tudo tem de estar lindo no teatro Eva Herz. 
            Gostaria de ouvir algumas experiências que professores tem com o ensino de teatro infantil... Já comecei dando uma introdução do que é um musical estudando o primeiro personagem de Os Saltimbancos, o Jumento, por sua música. Foi bem legal, mais produtivo do que imaginava. Eu já tenho uma certeza: eles compreendem a letra, sabem interpretar um texto (como na aula de português). 
            Na próxima semana eu falo como foi o primeiro dia de tentativa para montar este espetáculo! Aguardo novas experiências!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A ESCOLHA DE ASPETA

Hoje, meus amigos, o post não é diretamente voltado pra o teatro, mas existe por causa dele. Escrevi o esboço de uma peça sobre "escolhas", contando a história de Aspeta, uma mulher de 45 anos, médica, casada, sem filhos. Uma mulher que escolheu "esperar". Mas esperar o que? Nem ela sabe... confesso que me baseei um pouco em "Esperando Godot", de Samuel Beckett.
Aí vemos a magia da comunicação e das artes: depois de pronto, você não tem controle sobre a interpretação das pessoas. Mostrei a peça para alguns amigos, e chegamos na seguinte conversa: quantas pessoas agem como ela? Quantas pessoas simplesmente esperam sem necessariamente saber o que se está esperando? O que motiva a espera? O medo? A insegurança? No caso de Aspeta, o medo. Ela não se sentia capaz de nada, ela não confiava nela mesma. Era triste.
Durante a conversa chegamos no outro ponto: as pessoas esperam tanto que esquecem de simplesmente viver. Querem adiantar o tempo, querem virar a página da própria vida, sem nem ao menos ter escrito alguma coisa. Quando olham pra trás, o que vêem? O que se viveu? Viveu-se às pressas. Não defendo a ideia de viver só de presente, acho que o homem deve se planejar. Mas mesmo planejando, deve viver um dia de cada vez.
Esse assunto bateu muito em mim, pois achava que tinha emprestado à Aspeta apenas algumas características minhas: ansiedade e auto-boicote; mas não... percebi que eu mesma não consigo viver um dia por vez, eu mesma quero virar as páginas da minha vida sem nem ao menos tê-las escrito. Isso causa uma angústia tremenda! Um medo de não conseguir realizar tudo o que pretendo, um medo de me tornar uma frustada. Mas  frustada pelo que? O que mais frusta: a sensação de não ter vivido, ou a sensação de ter realizado somente alguns sonhos?
O que será que esperamos tanto da vida? Por que será que exigimos tanto dela? Será que a procura da felicidade nos torna mais ansiosos? Se já sabemos que a felicidade plena é muito rápida, porque desejamos tanto encontrá-la? Não podemos ser felizes com pequenas coisas?
Exigimos demais de nós mesmos e de nossas vidas. Passamos a maior parte do tempo planejando uma vida completa do que realmente vivendo: queremos nos formar, nos fixar no emprego, construir uma família, morar em uma casa própria, criar os filhos com tranquilidade, ter uma velhice mais tranquila ainda, e acima de tudo, morrer em paz, feliz que realizou todos os seus sonhos, inclusos ou não nesse planejamento de vida.
Tem alguma coisa errada com esse mundo do século XXI. Será que nos tornamos pessoas-mecânicas, acostumadas com a procura por ser feliz? Essa é a sina da geração coca-cola e da geração Y? Temos que viver calmamente, dar tempo ao tempo. O mundo hoje já é frenético demais, não desperdicemos as nossas vidas. Não faço votos pela espera, mas sim pela maneira sábia de viver: planejar, sonhar, mas com o pé no chão, sem grandes expectativas, porque tudo pode acontecer. Entendeu, Beatriz?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Pina, Elis e Yoshi: Três pessoas, Uma arte

Assistir "Pina- 3D" foi um tanto quanto desesperador, principalmente quando você está lendo o livro "O Ator Invisível", de Yoshi Oida na mesma época.
Há algum tempo venho pensando em quanto conheço o meu corpo e quanto sei usá-lo em cena. Há algum tempo tenho a resposta: quase nada. As aulas de corpo do Macunaíma ajudaram um pouco, mas não chega nem perto do suficiente. É preciso mais estudo. O ator nunca, ao meu ver, deve se achar "completo". Sempre há espaço para mais estudo, mais conhecimento.
No cinema, eu e meu namorado Rodrigo Inamos nos bestificamos com a capacidade que os bailarinos de Pina Bausch têm de interpretar uma dança. Vemos tudo com outros olhos. Sentimos. Yoshi Oida nos diz no começo do seu livro que "interpretação" é a somatória da capacidade de atuar, dançar e cantar de uma pessoa. Ou seja, o ator DEVE saber fazer as 3 coisas. Não que ele deva ser um excelente bailarino ou cantor, mas deve pelo menos saber fazer as 3 coisas básicas.
Fica perceptível a diferença entre assistir um bailarino que apenas dança e outro bailarino que dança e sente. Ao sentir, o bailarino se mostra humano, os espectadores sentem-se mais envolvidos com a história. Pode até às vezes acontecer a tal de "catarse" durante o espetáculo. Se acontecer, parabéns bailarino: você conquistou o público, contou uma história, se comunicou.
Isso é algo que eu sinto falta nos espetáculos de dança. Os bailarinos reproduzem partituras corporais pré-determinadas, sem um tanto de sensibilidade. O espetáculo fica frio, o que esquenta é o ritmo da música, ou não. Seria tão mais interessante ver um espetáculo de ballet, jazz, dança africana, circo, sapateado, contemporânea - qualquer tipo de dança, mesmo- onde os artistas nos contam histórias por meio do seu corpo, sem uma palavra, mas que o espectador se sinta envolvido pela dança, pela técnica e pela emoção do artista. A partir do momento em que o bailarino/dançarino sabe que quer passar uma mensagem, tenta se comunicar com o público pelo seu modo artístico, o envolvimento é outro.
Digo a mesma coisa para os atores. Todos nós ouvimos muito falar de "verdade cênica", isso é uma batalha diária. Mas, do que adianta somente usar a nossa voz? O corpo fala. Quando o ator sabe usar seu corpo, a energia é outra. Ele faz tudo com mais certeza, se movimenta de outra forma, sai do óbvio e prende muito mais seu público, que percebe que aquele momento é sim, mágico.
Pina consegue em seu talento misturar as duas artes, que são complementares no palco, e exigir de seus artistas que façam as duas muito bem. Lembro em uma aula de história do teatro que eu tive, se não me engano com o Zédú Neves, quando ele nos mostrou o Cafe Muller. A reação da sala foi incrível. Todos nós queríamos estar lá, fazendo o Cafe Muller, tanto que em nossas cenas gostávamos de abusar da repetição de gestos. Experimente repetir a mesma partitura várias vezes, cada vez mais rápido para saber que sensação você teria. Ela é incrível.
Outra artista que usa das duas artes e a transforma em uma só é a finada Elis Regina. Existe uma grande diferença entre apenas cantar e cantar e interpretar, tanto que Elis é até hoje lembrada como a melhor cantora brasileira. Ela nos contava uma história a cada música.
A mensagem que quero passar é tanto para nós atores quanto para os bailarinos/dançarinos: aprendam mais sobre seu corpo, sobre suas emoções. Libertem-se na arte, sintam a arte. Ame seu público e a história que você irá contar. Em respeito à ele, estude mais, tente mais, exponha-se ao ridículo. É melhor que ficar escondido atrás de você mesmo. Ouse, sempre.